sexta-feira, maio 30, 2008

A humilhação, pura e simples

Poucas coisas afetam tanto a masculinidade de um homem, como ter de chamar um eletricista. Veja só a situação. Você chama um outro homem para ir a sua casa resolver um problema seu e ainda tem que pagar. E caro. Sei que poucos gostam de admitir isso, mas algumas vezes temos que dar o braço a torcer e entender – Chuck Norris me perdoe – que não podemos fazer armadilhas mortais na selva, bombas caseiras e instalação de equipamentos com mais de cinco fios. Na verdade, até poderíamos, mas na tentativa, teríamos que ler o manual de instruções, o que confrontaria com outra regra ainda mais básica, jamais pedir arrego para um bloquinho de papel escrito para mulheres.

Receber o eletricista em casa já é por sozinho humilhante. Você liga e marca uma hora; ele chega atrasado, pede desculpas e você diz que está tudo bem; ele te pergunta onde você quer e depois, com naturalidade, volta a indagar se está bom para você. E isso tudo, envolvendo um outro homem.

Já ouvi várias teorias explicando as noções de poder envolvendo professores em salas de aula (em pé, a frente da sala) e alunos (sentados em grupo). Mas relação ainda mais clara e perversa, é ter de acompanhar enquanto seu contratado está de pé, radiante no topo de uma escada dando ordens: “pegue aquela chave ali”, “alcance aquele fio” ou pior “não, não, aquela outra, debaixo da parafuseta de Viena”. Uma coisa é ele querer te humilhar, outra completamente diferente é te chamar de corno na frente do seu próprio pai. Porque inventar nomes para ferramentas, só para deixar perdido, é tão feio quanto briga de foice.

Acho até que essa discussão toda, abre espaço para a análise de um novo segmento de mercado. Por que não eletricistas gatas. Imagina receber em casa uma moreninha de pernas e seios bem desenhados e poder observar – com a segurança do dinheiro bem gasto – ela subir na escada e se contorcionar para manter equilibrada na escada. E se a patroa viesse dizer alguma coisa, o contra-argumento deve estar na ponta da língua: "chamei alguém de fora, amor! Pra ter certeza de um serviço bem feito."

domingo, março 23, 2008

Saudade

Toda cerveja tem gosto de Viçosa.

domingo, dezembro 16, 2007

102

O “ser ou não ser” tornou-se famoso, mas ao “querer ou não querer”, poucos prestarão a atenção. Sozinho, acompanho passo-a-passo os passos de exemplos quem, supostamente, devia seguir. Mas incapacitado pelas auguras do presente sou incapaz. Vejo, sem ver, a escuridão demonstra-se tão claro quanto a luz. Quem sou? A resposta em clichê de um sentimento que transcendo palavras, músicas ou gestos. Cheio de anseios e sonhos, perdido em angústias e desejos, me delicio com a vontade de ser quem não sou, enquanto espero o momento de manifestar um EU podre, despreocupado, corrompido sem a noção do OUTRO.

Perdido nesse titubear de individualidades, roubo um pouco daqui e outro acolá para repousar na lembrança de que fiz o que devia ser feito. Independente do que agora realmente queria dizer. O “elas”, “ela”, “delas”, “dela” ficaram esquecidos num presente invocável, distante quanto a certeza de um presente irrevogável.

Quem sou agora? Perguntam ingênuos! Sou a luz da fogueira que se extinguiu na dúvida. A verdade que se perdeu na afirmação. Sou a faísca incapaz de produzir o fogo, a noção incapaz de ser concebida como verdade.

Sem sonhos ou desejos, me despido na incerteza da certeza, da verdade transformada em mentira, como a carne podre que tem certeza de ser carne sadia.

Saiba, ora pois, que verdades sempre transformam em incertezas quando os ventos são desfavoráveis, e que vento nenhum leva o barco ao porto certo.

Incerto, deposito minhas certezas nas expressões sem sentido, onde estão contidas todas os melindros dos entendidos e inverdades dos sábios em peito, mas covardes em palavras.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

101

Primeiro dia de jornalista é igual ao primeiro dia como jornalista bêbado.

As oficialidades da formatura ainda são em janeiro, mas a apresentação da monografia, que outros amigos jornalistas insistem em chamar de pornografia, é assunto do passado. Um ano preparando um texto que tive de resumir em 50 páginas que não expressaram metade do que realmente queria dizer. Senti como se Shakespeare tentasse resumir seu famoso Romeu e Julieta em – no bom inglês – “wanna do it? Yes, why not. What the crap? Cheat”.

Mas primeiro dia de jornalista é também a materialização final de uma responsabilidade que vinha se esboçando desde o início desse fatídico semestre. A responsabilidade do dinheiro, do emprego, do casamento e da vida independente, o que de forma irônica se mistura displicentemente nesse sentimento de vazio elevado. É como bater palmas para um peido.

Perdido, encontrei um umbigo que não queria ser encontrado, preocupado com as mil estrelas que se transformaram em pupilas, ardentes por novidades.

Recebi parabéns que soaram com o perverso “e agora?”.

Pergunta essa, que de tão melindrosa, dá um salto semântico para responder sozinha, “agora nada”. Gabriel Garcia Marques devia conhecer o sentido, porque a noção de começo e fim, misturadas nesse tufão de sentimentos, me lembra bastante as últimas páginas de “100 anos de solidão”. Ao chegar ao fim definitivo, momento que marca o definhar de todas as coisas, fica claro a noção de que desde o início, estávamos todos inescrupulosamente predestinados a sucumbir. Sinto o suspiro inicial, assistindo ao momento derradeiro. Início e fim ligados pela singela noção do presente.

Louco manso que sou, fico sozinho com sonhos e desejos, para definhar na solidão um sentimento de grupo. Os sonhos, repousam em ferramentas ultrapassadas, símbolos de tempos modernos. Os desejos presos a vontade de um telefone que só agora percebo ser sem coração.

Minha frase fica largada as reticências da expectativa do entendimento. O que me falta em palavras, sobra na esperança de que, apesar de incompleto...

segunda-feira, outubro 29, 2007

Post 100


Fiquei meses tentando pensar no post perfeito para comemorar a centésima postagem. Não veio nada em mente, então acabei ficando distante. Para quebrar essa maldição, vai aí um post dos tradicionais.

sábado, julho 28, 2007

O pedaço de uma biografia

Culpa da ansiedade, não conseguiu dormir.

Deitado na cama, olhava um dos cantos da janela. Um pedaço quebrado do vidro permitia que a luz invadisse o quarto e incomodasse as pálpebras já inquietas. Não suportando o peso do corpo sobre o colchão, preferiu levantar. Caminhou até a porta e olhou discretamente para o corredor escuro. Uma luz de baixa potência amarelava o cômodo, sem iluminá-lo.

Dominou o resquício de um medo infantil e arriscou alguns passos. O ambiente era habitual, podia ler, escondido nas paredes, as marcas rupestres de sua vida. Cada centímetro guardava um segredo. O clima de saudosismo pesava-lhe as sobrancelhas. “Ó saudade déspota”, lamentou em silêncio.

A caminhada até a cozinha só lhe roubou alguns segundos. Um copo de água, outro de leite, mas não era assim, sabia, que ia afogar sua sede. Ainda segurando o copo sujo se arrastou até a janela aberta para o quintal e ali se deixou levar no olhar perdido muito além das estrelas.

A escuridão foi interrompida pelo sol que ameaçou levantar, o silencio, pela mãe que vinha preparar o café. Afugentado para o quarto sabia que tinha muito o que fazer, tudo teria de estar pronto em poucas horas.

Durante o café ameaçou algumas poucas palavras. Os clichês das despedidas não limparam as lágrimas da mãe. De olhar baixo, com o queixo esfregando-se ao peito caminhou pelo resto da casa. Murmurou juras. Abençoou cantos e quinas.

O pai lhe esperava no quarto. Olhos fixos, queixo como que entalhado em pedra. Segurava um pequeno envelope nas mãos. As mãos suadas já começavam o borrar o nome escrito aos garranchos: Bruno. Ao vê-lo, o pai se levantou. Deu dois passos e esperou que o filho viesse abraçá-lo. Uma mão estendida procurou a sua. Mas esse não era o momento delas. Os braços se ergueram, as lágrimas não se contiveram, e pai e filho celebraram juntos, escondidos pelo silencio, a ternura que só encontrava lugar no seio da família. Não se demoraram.

No caminho para a rodoviária observou cada detalhe uma segunda vez. Jamais conseguiria se lembrar do primeiro dia em que passou por ali, mas com certeza guardaria consigo para sempre essa última quando ainda pode chamar tudo aquilo de casa. Caminhou a passos curtos, despreocupados, mas ansiosos.

Na rodoviária viu-se em figura pintada, a sua vida até ali. Ombros caídos, mochila apoiada nas pernas, um moletom enrolado nos braços. Os olhos fixaram longe, afugentados pelo medo de se enxergar sozinho. Naquelas primeiras horas da manhã, poucos se arriscavam no frio de Alpinópolis. O ônibus vindo de Passos dobrou a esquina da igreja no final da avenida. O vácuo provocado pelo movimento balançou a aléia que se estendia por toda a rua principal. Um cachorro assustado correu pela grama amarelada do inverno. As orelhas livres chamaram a atenção de Bruno que acabou permitindo a um sorriso esboçar seu traço no canto da boca.

Percebido o erro, realinhou os lábios e manteve a atenção no ônibus que se aproximava. O barulho agudo dos freios fez eco nas paredes pichadas da rodoviária até se calarem diante o trocador que perguntava sobre as malas.

Confundindo-se, Bruno respondeu sobre as lembranças:

--- Vou levá-las comigo.

Subiu para o ônibus e se permitiu sonhar: “como será Viçosa”?

terça-feira, julho 17, 2007

Sabedoria do dia 18


Acessado em http://www.wulffmorgenthaler.com
Tradução livre por Thiago Locutor

quinta-feira, julho 12, 2007

Sabedoria do dia 17


Acessado em http://www.wulffmorgenthaler.com
Tradução livre por Thiago Locutor

terça-feira, julho 10, 2007

Sabedoria do dia 16


Acessado em http://www.wulffmorgenthaler.com
Tradução livre por Thiago Locutor

sábado, junho 23, 2007

Sabedoria do dia 15


Acessado em http://www.wulffmorgenthaler.com

Sabedoria do dia 14


Acessado em http://www.pbfcomics.com/?cid=0PBF34036BC-Falling_Dream.jpg#35

quinta-feira, junho 14, 2007

Sabedoria do dia 13


Acessado em http://www.dilbert.com
Tradução livre por Thiago Locutor

segunda-feira, maio 28, 2007

Sabedoria do dia 12


Acessado em http://www.wulffmorgenthaler.com
Tradução livre por Thiago Locutor

Viagem de ônibus

11 horas de ônibus? Impossível não descer um pouco melancólico.

Foram tantas horas sozinho, afundado em pensamentos, que memórias, sonhos, decepções vêem todos dividir um pouco de sua atenção enquanto o mato parece correr lá fora.

Sou do tipo que puxa conversa. Ônibus é um lugar péssimo para se conversar com estranhos. Ali, presos, pra onde fugir, onde “pegar mais bebida” ou ainda, onde “procurar minha irmã”? Se a conversa está ruim ou caminha para isso, os interlocutores estão presos naquela caixa de ferra a 100 km por hora ligados pela proximidade da poltrona. Não, prefiro ficar calado. Mesmo porquê, ainda corre-se o risco dela(e) ser do tipo que adora falar. Nesses casos, aquele bom dia transformou-se num convite para ouvir sobre a festa de casamento da tia encalhada e como as feridas alérgicas do afilhado está melhorando. Faço mesmo é o tipo sem educação. Não falo, não sorrio e não corro riscos.

Durante anos, absorto no silencio, me incomodei com as conversas altas, os bêbados cantando e a velha reclamando de dores na bacia, “culpa do sereno” dizia. Mas fui crescendo e no meio de tanto o que aprendi, percebi que a graduação de volume ia de 0 à 100 e que 100 é bem alto. Claro que corro o risco de ficar surdo qualquer hora dessas, mas se é para ouvir o que vinha ouvindo, talvez melhor ser surdo mesmo.

Mas nenhum dos problemas de um viajante se compara à tradicional poluição olfativa. Dessa, não se escapa. As narinas pregadas no pulso do perfume. A disfarçada camisa sobre o nariz. A janela arreganhada. No final das contas é impossível fugir do cheiro. Também, quem mandou sentar do lado do velho do pito e da tia do bigode. Mas péra aí, eu não sentei do lado deles, eles sentaram do meu! Então, quem mandou nascer pobre, agora agüenta o ônibus.

quinta-feira, maio 24, 2007

Descrição de uma bicicleta


Era fácil de imaginar um jovem pilotando aquela bicicleta.

Azul, prateado e branco, cores modernas que traziam um ar despojado. O gosto adolescente por personalização era claro nos adesivos de desenhos da década de 90, amortecedores em aço escovado e os chifres, como extensões dos guidões, carregavam a imagem esportiva. A bicicleta era bem cuidada, limpa. Claro onde devia ser clara, escuro onde devia ser escura.

O desenho do esquadro era simples, “sofisticado” suponho que o dono diria. Um triângulo que formava seu lado reto nas primeiras coroas ligadas ao pedal. As juntas tinham a solda bem aparada, um capricho para aqueles que fazem questão de um bom produto.

A bicicleta era uma máquina perfeita para o transito, fácil de imaginar, respeitosa, deslizando apesar das ruas pouco cuidadas da cidade. Espelho retrovisor circular no lado esquerdo, campainha discreta no direito: aparatos exigidos pela legislação.

O banco era um show à parte. Uma seqüência de “moderno”, “aerodinâmico”, “estrutura de carbono”, “silicone” seria ouvida de um entendedor. Não que o assento precisasse de um para conhecer seu lugar. Afinal, ficava ali, acima de tudo, na posição de destaque para aquele capaz de guiar a máquina.

quarta-feira, maio 23, 2007

Só quem já caiu


Só quem já levou um tombo, sabe como doem os joelhos. O desconforto de preparar-se para levantar. A humilhação de ver os outros na perspectiva do chão. O coração que não para, assustado pela queda. O orgulho ferido de ser traído pelas próprias pernas.

Sempre fui sonhador. Mas passo a passo os sonhos vão se transformando em esperanças até se definharem em desilusões.

Primeiro descobri que sozinho não poderia mudar o mundo. Depois, que poucos estariam dispostos a juntar forças comigo para fazer algo diferente. O universo não quer ser mudado.

Depois achei que as pessoas eram boas. Diminui meus padrões para me acomodar na ilusão de que a educação era um bem universal. Agora, esquecido, a verdade injusta é que poucos se importam com muitos. A maioria só tem um foco na vida, o próprio umbigo.

Por palavras não ditas, amigos vão ficando para trás. E cada uma dessas folhas que voaram da árvore seca, podem até dançar nos ares, como se mais leves que penas não precisassem de asas. Mas no final, de certeza só se tem a queda.

Decepcionado, triste e magoado o sol nasceu pálido abaixo das nuvens. Veio, olhou, não se importou e voltou a se esconder. Por que a escuridão? Perguntaram os olhos.

Porque não há mais razão para luz. Não há mais motivos para sonhar.

Aprendi hoje mais uma lição: que de poucos pode-se esperar.

terça-feira, maio 22, 2007

Sabedoria do dia 11


Acessado em http://www.wulffmorgenthaler.com
Tradução livre por Thiago Locutor

segunda-feira, maio 21, 2007

Sobre o feminismo


Sempre quis escrever um texto sobre o feminismo e o papel da mulher na sociedade. Em duas oportunidades as palavras chegaram à ponta da língua, mas desisti. A primeira delas foi quando eu li um texto fantástico no “Mulher contrariada” da minha grande amiga Angélica e a segunda, quando me disseram que eu era um pouco machista. Pois bem, hora de esclarecer o que eu penso sobre o assunto.

Antes de mais nada, a inspiração e as citações para esse post foram coletadas no “no mínimo ׀ Contemporânea”, escrito por Carla Rodrigues (pode ser acessado aqui: http://contemporanea.nominimo.com.br/).

Em visita ao Brasil, o papa Bento XVI declarou ao povo brasileiro “as mães que querem dedicar-se plenamente à educação de seus filhos e ao serviço da família têm de gozar das condições necessárias para poder fazer, com o direito de contar com o apoio do Estado. O papel das mães é fundamental para o futuro da sociedade.”

Em uma boa estratégia semântica, o líder da igreja católica deixou claro “as mães que querem”. Esse é o ponto fundamental de onde nasce a dualidade incoerente do pensamento feminista.

A revolução feminina da segunda metade do século passado levantou a pertinente bandeira da igualdade entre os sexos. A equidade entre homens e mulheres deveria ser alcançada em todos os níveis da sociedade, estendendo-se da vida doméstica ao mercado de trabalho. Mas a posição masculina na vida pública foi desproporcionalmente focada nesse processo. Era legítimo que as mulheres pudessem ter o mesmo status social que os homens na vida social, mas isso não implica que esse status é superior ao feminino. A posição no mercado, salários, foram sobrepostos as funções domésticas e maternas, pressionando que as mulheres “alcançassem” sua posição lado-a-lado aos homens. Essa foi a grande falha.

O raciocínio deveria ter sido, desde o principio, em estruturar um mercado que permitissem as mulheres ter condições de trabalho iguais as masculinas, bem como valorizando, na mesma proporção, aquelas que escolhessem a vida doméstica. Pensamento este, que deve ser aplicado, na mesma instância, para os homens.

Sustentar uma casa, nos termos contemporâneos, é importante. Mas garantir a boa educação dos filhos, principalmente numa época de distúrbios éticos e morais, é igualmente necessário para se construir o país.

Nota da ilustração: Impossível não lembrar do paralelo com a obra "A liberdade guia o povo" (tradução livre).

Isso é que é criatividade


Segundo o jornal The Times of India (que por si só já daria sentido ao título desse post), em Bihar, no leste do país, um trem parou e o maquinista não conseguiu colocá-lo em movimento novamente. O jeito foi apelar para uma mãozinha. Ou centenas delas. “Convidados” pelo condutor, os passageiros tiveram que descer e empurrar. O jornal diz ainda que os passageiros que foram necessários 60 metros para que o trem voltasse a funcionar. A matéria, em inglês, pode ser lida clicando aqui.

Sabedoria do dia 10


Acessado em http://www.wulffmorgenthaler.com
Tradução livre por Thiago Locutor