Thiago Medeiros Ribeiro
Esse texto análise se propõe a estender um olhar reflexivo sobre o caderno “dinheiro” da edição de 25 de novembro de 2006, domingo. O texto que segue é um projeto irmão do trabalho: “Folha de São Paulo e o jornalismo econômico efetivo – caderno dinheiro2”.
INTRODUÇÃO
O jornal Folha de S. Paulo é o maior jornal impresso em circulação no país. Atualmente, a impressão é dividida em 11 cadernos diários (Capa, Opinião, Brasil, Mundo Ciência, Dinheiro, Cotidiano, Esporte, Ilustrada, Acontece e Classificados), somados à outros 10 suplementos semanais (Folhateen, Fovest, Informática, Equilíbrio, Turismo, Guia Folha, Folhinha, Mais!, Revista da Folha e Classificados específicos).
Comprado em 1960 pelos empresários Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira, a Folha de S. Paulo sempre teve uma forte tendência a posicionar-se junto a estrutura de central de governo, apoiando inclusive o Golpe Militar de 1964 e mantendo seu apoio à Ditadura Militar até a ascensão do General Ernesto Geisel. Essa postura só mudou com a reestruturação vivida pelo jornal, que buscou o desvencilhamento do governo federal e o autodirecionamento. Esse processo assistiu a criação de nomes que ficariam famosos na história do jornalismo brasileiro, como Cláudio Abramo, Bóris Casoy, Clóvis Rossi e Jânio de Freitas.
A Folha de S. Paulo é hoje a clara publicação da classe média brasileira, especialmente à população do sudeste. O jornal evita os extremos, pintando uma imagem nacional de progresso e a constante melhora do bem estar nacional. Mantendo uma olhar em seu público de domingo, a Folha trás notícias mais amplas, com estruturas textuais mais complexas, permitindo o entrelaçamento das diferentes matérias dentro da mesma editoria. Nesses momentos, a sensação de um jornalismo explicativo, normalmente utilizado em revistas, é grande.
Determinado o foto-público da impressão do jornal Folha de S. Paulo, observa-se que esse grupo também é altamente fragmentado. O próprio olhar sobre a estrutura familiar mostra a tradicional diferenciação de gostos e vontades do brasileiro. Uma segunda onda de diferenciação nasce nas múltiplas atividades profissionais dessa então categoria – leitor da Folha. Consciente disso, o jornal busca atender à todos, mas conservando, obviamente, a uniformidade do discurso ideológico.
DESENVOLVIMENTO
O caderno dinheiro da edição de domingo do jornal é a clara materialização em impressão dos anseios intelectuais do cidadão padrão da classe média nacional. A observação nasce no vislumbramento da estrutural básica da editoria: textos opinativos de colunistas e matérias firmadas no sensacionalismo comercial-econômico, abordando fraudes, roubos milionários e o dia-a-dia de grandes executivos ou mega-empresas. A exceção são as matérias que apresentam elevado interesse do leitor, como as compras de natal.
O interessante desse caderno é sua diferenciação quanto o assunto é a grande economia, como o movimento dos governos e a política empresarial brasileira. Sob a editoria dinheiro, esses temas são romanceados, citando-se os “milhões de reais” como instrumentos magníficos de um viver social idealizado. Esse “lado de lá” econômico, é como uma versão financeira de editorias como cotidiano, aonde o leitor pode viver essa realidade conhecendo-a um pouco melhor.
Essa colocação, apesar de romanceada, não foge aos tradicionais traços do jornalismo econômico brasileiro como o oficialismo. Entretanto, o caráter nacionalista das notícias ainda é marcante, como mostram os exemplos:
“Marca brasileira entra na Sakes e no Corte Inglês – Com um padrão que busca aliar tecnologia, funcionalidade e conforto, a marca de lingerie Liz acaba de entrar em duas grandes redes de lojas de departamento no exterior. A primeira delas foi conquistada em outubro deste ano, a Saks Fith Avenue, dos EUA. A segunda é a espanhola El Corte Inglês, que deve ser “invadida” pelos produtos brasileiros em janeiro do ano que vem”.
“A Associação Normandia Street Shopping investiu R$ 200 mil no Natal da rua Normandia, em Moema (região sul de São Paulo), e estima um aumento de 50% nas vendas das lojas. A expectativa é que mais de 300 mil pessoas passem no local até o dia 6 de janeiro”.
O grosso das pautas é, entretanto, o sensacionalismo policial que envolvem as empresas como: “Grandes marcas são acusadas pela PF de fraudar importação”, “Empresas negam ter cometido fraudes” e “Comércio ilegal ganha fôlego com Natal”.
Novamente o traço principal dessa categoria de jornalismo é marcante, e nessas notícias encontra-se novamente o oficialismo, dessa vez aliado ao entreguismo e internacionalismo. Na reportagem “Empresas negam ter cometido fraudes”, por exemplo, apesar das investigações encontrarem-se bem avançadas, o jornal Folha de S. Paulo sai em defesa das grandes empresas internacionais e dedica 85% do espaço reservado à notícia a auto-defesa dessas empresas, reproduzindo, integralmente, a carta oficial de defesa dessas companhias. O oficialismo supracitado como caracterizador da matéria é o exclusivo espaço de 15% destinado ao parecer oficial da Polícia Federal.
O caderno dinheiro da Folha de S. Paulo é ainda marcado pelos espaços de opinião de seus colunistas. Esse tipo de redação é determinante na formação de opinião do leitor, que muitas vezes, quer ouvir a explicação e explanação do “especialista”. Obviamente, essas opiniões traduzem a vontade ideológica do jornal, defendendo a agenda neoliberal do setor industrial e comercial brasileiro. Essa agenda neoliberal traduz-se também na necessidade de defesa do interesse do capital financeiro internacional e seus objetivos políticos-ideológicos para o estado brasileiro.
CONCLUSÃO
Conclui-se, portanto, que esse caderno é na verdade uma publicação degradada do tradicional jornalismo econômico, mesmo o observado nos jornais brasileiros. Essa “inovação” da Folha de S. Paulo busca criar um espaço acessível ao leitor comum, incapacitado de decodificar o “economês” do caderno dinheiro2, mas ansioso pela oportunidade de acompanhar os “principais” fatos da agenda política-econômica do governo.